Sábado, 1 de Agosto de 2009

MEDÍOCRE, LOGO MEDALHA.

1. Há características extraordinariamente comuns às pessoas medíocres. Seja qual for a sua área de trabalho, os medíocres encontram sempre uma estratégia para se fazerem passar por responsáveis, e, espantosamente, conseguem-no. Todos os países tem a sua quota de medíocres, uns mais e outros menos, é certo, porque a mediocridade só tem consequências reais se for tão comum que se torne visível, e, entre nós, não só é visível como recompensada. O que define o medíocre é o facto de não ser bom em nada, nem péssimo em tudo. Se fosse péssimo a sociedade lá arranjaria uma forma mais expedita de se ver livre dele, mesmo que fosse promovendo-o a Marechal, com a Ordem de Cristo ao peito, ou reformá-lo com honra, distinção e uma verba choruda. O medíocre não se deixa enrolar com tão pouco. Ele é um ruminante da vida, uma toupeira de esquemas e matreirices, um lambe-botas encartado sempre à espera da oportunidade de não fazer nada dando a sensação de que fez tudo para que nos salvar do cataclismo. Ele nunca é responsável pelo falhanço, pela inépcia, pelo desleixo, pela fraude. O medíocre não ‘sabe nada’ e sempre fez tudo ‘dentro da maior legalidade’. Pelo contrário, se não fez mais foi porque ‘não lhe deram condições’. O medíocre não se preocupa com mais nada que não seja o crescimento da sua conta bancária à custa do menor dos menores esforços. E esta é uma atitude transversal às mais diversas actividades profissionais. É assim nos restaurantes que nos atiram, em travessas de inox gordurosas, miscelâneas esverdeadas e cinzentas que pomposamente vem descritas na lista como “vitela à casa”. É assim na construção civil quando nos ofuscam com fichas técnicas infalíveis de apartamentos já plenos de rachas nos mosaicos e infiltrações no lugar dos chuveiros. É assim na política quando, mandato após mandato, se agravam problemas urgentes que apenas carecem de quem se preocupe genuinamente com eles, de quem se debruce, denodado à causa pública, e, no mínimo, em honrar o cargo. Mas o medíocre não sabe o que é honra, porque na maior parte das vezes ele não foi eleito para nada. O medíocre é, geralmente, nomeado. O seu curriculum é ser amigo de um amigo com quem frequentou a Universidade, ou insistir, com a assiduidade de quem procura a brecha, os ambientes onde pululam os seus pares: outros medíocres igualmente perigosos e inúteis. Pode ser um circuito de bares, festas, jantares em casa de fulano ou mesmo apenas uma férias em hot-spots do Algarve. Como num aquário onde, à mão, se pescam peixes-vermelhos que se fazem passar por trutas, também nestes salões saloios de medíocres se espera pela vez, pela oportunidade do cargozito, da promoçãozinha, da nomeação ‘inesperada’. Em caso de crise, por exemplo governamental, é só perguntar ao amigo: “Ouça lá, você está a ver alguém para Director-Geral de Não-Sei-o-Quê?”, ao que o outro responde: “Eh pá, assim de repente não estou a ver, mas deixe-me na quinta-feira falar com o Cicrano no jantar de Beltrano. Tem que ser do Partido?”. E lá vai a mão ao aquário arrancar o peixinho-vermelho, vesti-lo de truta e pronto: mais um alto funcionário do estado a ganhar uns milhares que façam jus à sua ‘extrema competência’. Infelizmente, na maior parte da vezes, assim funciona o País.

 

2. É claro que são as ‘elites’, mormente os políticos, quem mais sanciona a mediocridade ao conferir-lhe responsabilidades. Ora responsabilidade e mediocridade são, ou deveriam ser, como a água e o azeite: não se misturam nem à força. A não ser com a muito boa vontade dos bastidores que estas ‘elites’ fabricam. E aí, nem a mais elementar lei da física resiste: a gravidade é a força que atraí a terra ao centro de qualquer corpo, nunca o seu inverso. Ao ditarem a regra no altar público, estabelece-se que ser madraço e pobre de espírito pode compensar.

Todos os dias assistimos, indefesos e atónitos, ao surgir de fantásticas figuras exímias nesta imensa arte quase tão portuguesa, não fora existir América Latina ou África para nos suplantar. Por exemplo: Dias Loureiro, ex-ministro, ex-Conselheiro de Estado, ex-presidente da SLN, ‘administrador’ de empresas, assinou, nesta última qualidade documentos, dos quais agora ‘não se recorda’, entre a SLN e uma empresa de Porto Rico que trouxeram instantaneamente prejuízos de 40 milhões de euros à primeira. Não me parece que tenha ficado muito preocupado com isso. Afinal o dinheiro não era seu, mas dos accionistas e, em última análise, dos clientes do BPN, entidade bancária tutelada pela SLN. Hoje, todos pagamos através dos nossos impostos, este e outros golpes deste Rei dos Medíocres, cujo curriculum não passa de ter estado à hora certa no aquário dos amigos de Cavaco. Mas, tendo feito ‘tudo dentro da legalidade’ e ‘tendo dado o seu melhor’, espera-se, o mais comum dos desfechos: o estrondoso falhanço de uma punição merecida e até, quem sabe, uma medalhazinha no 10 de Junho próximo, se não a tiver já. Os medíocres adoram medalhas. O Mutley também. Por isso sorria sempre ao seu dono.

 

3. Quando recentemente morreu essa figura ímpar da Cultura Portuguesa, João Bénard da Costa, homem de imensa dimensão ética e de um empenho invulgar de competência e rigor, por exemplo à frente da Cinemateca Nacional, logo apareceu  na TV um senhor de ar lambido e ávido a fazer-lhe o elogioso epitáfio. Para meu espanto, em vez de falar da obra única de Bénard da Costa, usou o tempo de antena para afirmar esta frase extraordinária, e passo a citar: “Quem lhe suceder, só pode ser um simples humano.”(sic) Claro que não estamos à espera de um Deus para suceder a Bénard da Costa. Afinal ele era o mais simples e humano dos homens. Apenas era competente. Muito competente. O que, não sendo uma obrigação, não deixa de ser extraordinário em qualquer cargo público, mas não uma característica divina. Ora, o que este senhor lambido e ávido, cujo nome não me lembro, queria mesmo dizer era: “Bom, agora que o cargo para Director da Cinemateca está em aberto, ‘farei o meu melhor’, ‘dentro da legalidade’, uma vez que tenha este tacho garantido nas mãos.” Vim a saber depois que o dito era, aparentemente, o número dois da Cinemateca. Está bom de ver. Água e azeite afinal misturam-se. É a voz não só do puro medíocre como do peixinho-vermelho vestido de truta. E lá irá ele, todo contente e repimpado por ter estado no aquário dos ‘disponíveis’ à hora certa, tomar posse de ‘coisas importantes’ e de ‘muita responsabilidade’. Um dia também ele terá a sua merecida medalha. Os Mutleys não falham.

 

 

Pedro Abrunhosa

Porto, 1 de Agosto de 2009

 

 

publicado por Um_Tuga_no_Mundo às 16:39
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